Lincoln Domingues ← voltar
conto 5 maio 2026

O extrato e a lista

Antes de o sol nascer, o rapaz desperta. Ferve a água, bebe o chá com sabor de borracha com madeira queimada e parte.

Toma o ônibus, segura o caderno com as mãos encardidas da graxa de ontem. No trajeto à oficina do tio, estuda para o konkur e admira um desgastado panfleto da Universidade de Teerã que sempre guarda no bolso da calça. Maravilha-se com a beleza do prédio da Faculdade de Engenharia. Imagina-se lá.

Depois de o sol nascer, o pai acorda a moça. Ele e a mãe trazem café na cama. Sobre a bandeja de prata, um envelope.

Leem a carta, choro dos três. Aprovada no Institut Français de la Mode. O pai estufa o peito, vai bancar tudo em Paris. A mãe faz a lista de itens para viagem. O destino das compras, a Praça Enghelab.

O sol faz da oficina uma sauna. Está quase na hora do almoço. O tio manda refazer a cabeça de um pistão. O rapaz obedece. Pensa na poupança, mas o celular velho não baixa o aplicativo do banco.

No almoço, caminha até os caixas da Praça Enghelab. A máquina cospe o papelote do extrato. Saldo: 1.300.000.000 de rials. Um bilhão e trezentos milhões, a quantia de que precisa para ficar um ano só estudando.

O chofer estaciona na praça e abre a porta traseira para a moça, que desce. O calor da rua bate em seu gélido rosto. Ajusta o hijab, enquanto corre à primeira loja.

Eufórica, esbarra no rapaz. Ele, olhos fixos nos bilhões, derruba o papelote. A lista de compras cai junto. Abaixam-se. Tocam-se no asfalto. Trocam sorrisos amarelos.

Um estrondo de jato comprime a praça. O ar rasga. O asfalto sobe. Tudo vira pó.

É assim mesmo.