Do jeito que caiu ficou
No dia da derrota do Brasil para a Noruega, Marcos mudou-se para o 1002, onde vivia Vanderlei, que dali não saiu de mudança.
Saiu num saco preto.
O falecido, avançado em anos, se mudou uns seis meses antes. Chegou com suas velharias, ajudado por uma filha.
— Papai, acho que é isso — disse a filha, cansada, depois da décima segunda viagem de elevador, a carregar mudança, tamanha a quantidade de livros.
De chofre, alegando correria, a moça bateu a porta, e dali em diante aquele apartamento abrigou apenas Vanderlei, até o fim.
A rotina solitária daquele senhor era repetitiva, de segunda a segunda. O despertar acontecia cedo e era sucedido por higiene pessoal, café da manhã com bolachas Maizena, remédios e uma incursão à estante de livros. O acervo literário era vasto, mas Vanderlei tinha preferência por biografias e por Fernando Pessoa.
Ao meio-dia, saía a pé e em umas duas horas regressava, quase sempre com compras. Da quitanda, do mercado, da farmácia e do sebo, a depender da necessidade.
Nas tardes, com as pernas sarcopênicas exaustas, lia um pouco mais e assistia novelas antigas. Ligava para os filhos. Ouvia muitos “pai, já te ligo”, que pouco se seguiam de retorno, e com isso o seu semblante desabava.
Em raras chamadas de vídeo com os netos, sorria como um axolote, e seu sono era pacífico. Nas noites sem qualquer contato, ao dormir, encolhia-se e suava sobre o colchão.
Numa manhã qualquer, acordou, banhou-se, escovou os dentes e abriu o pacote de bolachas Maizena. Puxou o Livro do desassossego da estante, chafurdou uma bolachinha no leite, mastigou, engoliu, mas não consumou a deglutição. Agitou-se, levou uma mão ao pescoço e outra ao celular. Ligou para cada um dos filhos e, entre as chamadas não atendidas, começou a ficar com o rosto roxo. Tentou o SAMU, só que as palavras não saíam.
Levantou-se por um átimo. Foi ao chão. Arrastou as pernas, quedou-se imóvel, e morreu.
Do jeito que caiu ficou.